13/09/2009

O bêbado e o poeta

- Faz tempo que não venho num espetáculo
- Tem leão?
- Acho que tem.
- Quer quebra-queixo?
- Quero.
- Chocolate quente também?
- Prefiro uma.
- O circo é um lugar sagrado. Você não pode beber aqui.
- Ué. Não é desrespeito beber da forma que eu bebo. Sabe disso.
A noite começava a chegar quando a fila se formava sob a gigante lona amarela e azul. O chão de terra batida era coberto pelo pó de serra. Um friozinho agradável aumentava a venda do tiozinho da barraca de chocolate quente. Osvaldo, o poeta pacientemente aguardou sua vez e pediu ao tiozinho um chocolate e se ele tinha vodka. O bigodudo lhe serviu a bebida quente e balançou a cabeça para os lados respondendo a pergunta. Enquanto fazia o troco para dez, o tiozinho lembrou.
- Não quer um conhaque?
- Pode ser.
- Com gelo?
- Não precisa. Quero quatro doses.
Antes de voltar pra fila Osvaldo passou na barraquinha de doces e comprou dois quebra-queixos. Num, deu uma pequena mordida. O outro deu para o moleque que pedia para engraxar sapatos.
- Obrigado por guardar o lugar.
A moça de vestido roxo sorriu.
- Está forte o chocolate, bêbado?
- Está bom.
- Vamos sentar aqui.
- Aqui é melhor.
- É muito perto do palco. Assusto-me com as bombinhas dos palhaços.
- Deixa de frescura.
- Demora pra começar?
Osvaldo era homem de bom coração. Com canetas e teclados transformava palavras em obras admiráveis. Era um nobre escritor. Chorava fácil. Seus ápices da felicidade atingiam-se em momentos toscos, ingênuos e infantis. O circo era um deles. As luzes se apagaram, uma lágrima desceu para a bochecha do poeta.
Gritou o homem de cartola e smoking pretos.
- Gosto de malabares.
- Eu também.
- Esses são bons.
- Vou pegar mais um conhaque.
Não tinha fila na barraquinha do bigodudo. “O senhor me vê quatro doses de conhaque e um chocolate quente”, pediu o bêbado, que sentou no banquinho de madeira do meio. O tiozinho, sem fregueses naquela hora, puxou papo com o bêbado. “Frio, né? Não gosta de circo?” O bêbado já tem ela pronta. “Gosto sim, e muito. Estou aqui fora porque queria tomar mais um conhaquinho, mas já vou voltar. Quero ver os palhaços. Adoro os palhaços. Você gosta?” “Gosto também. Já fui palhaço. Era um dos bons. Ninguém ficava sem rir. Tenho saudade daquela época.” O causo foi longo. O bêbado ouviu o bigodudo atenciosamente. Despediu-se do tiozinho e voltou para o circo. O espetáculo chegara ao fim. Sua decepção foi visível. Encheu os olhos de água e partiu em direção a porta de saída.
- Eu não vi nada.
- Quem mandou ficar lá fora?
- Não seja ruim comigo.
- Não estou sendo.
- Vamos passar no bar
Osvaldo puxou a cadeira de uma mesa que estava próxima à parede e se sentou. Puxou uma caneta do bolso, um pedaços de guardanapos do porta-guardanapo e começou a resenhar. O bêbado pediu uma vodka.
- Vai tomar vodka?
- Não quero mais conhaque.
- Você está triste por ter perdido os palhaços?
- Um pouco.
- Vamos voltar ao circo amanhã.
- Ótimo.
O bêbado, completamente embriagado levantou-se. Foi ao balcão.
- Eu quero mais uma vodka. Marca pra mim. Estou indo embora.
Responde o dono do boteco: “Vou pendurar, mas preciso que você me pague na semana que chega. Combinado Osvaldo?” “Combinado”, responde o bêbado que foi para casa terminar o conto que havia começado.

Só fico sóbrio para corrigir a gramática do que crio na embriaguez.
Osvaldo, o poeta.

09/09/2009

Loucura de Caio

Caio, desempregado. Dívidas atrasadas. Aluguel, fones, luz, locadora, biblioteca, seguro, IPVA, prestação do carro, do fliperama. Afundado, mergulha em sua própria loucura. Expõe sentimentos íntimos, intensos e agonizantes. Escreve:

Sou dinheiro, moral, pecado, vôo, bocejo, chocolate, tosse, crime, vontade.
Tem quem constrói prédios, quem faça sexo, vende sexo, o usa, acusa, é hipócrita.
Filmam, escrevem, pensam, acusam, humilham, alimentam, riem.
Perdoa-me, sou infiel, vendo-me fácil.
Fumo, bebo, transo, compro, ajudo, cuspo.
Cheiro à perfume barato.
Quero a sorte.
Loucura.

06/09/2009

Talício Sirino, um lutador

Reportagem produzida no Rumos Jornalismo Cultural 2007/2008.

01/09/2009

O que é felicidade?

20/03/2009

Homem e personagem: o reencontro


Marcos Riboli

Era um ano antes da copa dos Estados Unidos, quando o franzino dentuço começa a construção do túnel que o levaria ao seu principal personagem. No continente velho, homem e personagem se unem com intensidade extrema. Dribles, gols, títulos pessoais e coletivos colocam a dupla no cume do futebol mundial. Mas o túnel não tem apenas passagens desobstruídas. Há portas no caminho. Para reabri-las, Ronaldo renega as previsões racionais. No último tombo, o mundo imaginou que a porta fecharia de vez.

A cerca de 200 quilômetros de Goiânia, no tapete listrado do estádio Juscelino Kubitschek, Ronaldo rompe a fechadura e mais uma vez é levado ao seu principal personagem. Para o encontro oficial com o Fenômeno, o homem traz no rosto um largo sorriso.

A célebre partida entre Corinthians e Itumbiara, do vereador Túlio Maravilha e do driblador Denílson, mostra o poder do 9. Ao entrar em campo, seguranças o cercam. Como hienas, repórteres o atacam. Torcida fiel e torcida inimiga cantam alto, para ele. Na TV, a partida torna-se coadjuvante. Ronaldo, no banco, aparece mais.

O cronômetro aponta 22 minutos, quando o gordo goleador pisa no impecável campo. 387 dias de dúvida passam. Corre, cruza, toca simples, tenta driblar. Foi. Um reencontro ainda tímido, mas otimista. O fenômeno está distante, mas louco de vontade para abraçar de vez Ronaldo, e juntos formarem novamente um dos mais intrigantes jogadores de bola que o planeta viu. Amanhã, na imprensa mundial: Again, Ronaldo!

02/03/2009

Zé do Caixão

Quando nascemos, ele já era trash (fora do Brasil, cult) e não cortava unha. Seu Zé também odeia Cola-cola, fuma absurdamente e prefere café à tubaina.



24/10/2008

Fomes de Marias

As irmãs Rodrigues tiveram a casa queimada pelo padrasto. A pequena Bianca tem problemas congênitos nos rins, na bexiga e nos ouvidos. Elas têm diferentes fomes. Fome de comida, saúde, cultura, afeto, atenção... Menos de esperança. É na arte que elas buscam mudanças.



Clique aqui para acessar o webdocumentário Fomes de Marias.

06/10/2008

Às menininhas, mocinhas e senhoritas

Criança cresce, vira menininha.
Conhece batom, compra sutiã, escolhe a calcinha.
Abandona as bonecas, torna-se vaidosa.
Já sai à noite, descobre a vida amorosa.
Faz planos supérfluos, sonha com o príncipe da escola.
Enfeita-se, perfuma-se, o quer de qualquer forma.
Bebidas, só refrigerantes das festinhas americanas.
Ao som de Bom Jovi, grudadinha com ele, dança.
Demora para dormir, perde a fome e só pense nele.
Mas fica vermelha de vergonha, na hora que o vê.
Escreve tudo no diário. Só o mostra para a melhor amiga.
Conta tudo exagerado, toda exibida.
Ansiosa, ensaia o primeiro beijo.
Treina com laranja e gelo, na frente do espelho.
Olha atenta os casais das novelas.
Repara nas línguas, aprende com elas.
Se o beijo é bom, sensação melhor não há.
Se for ruim, pensa: “Ainda tenho que melhorar”.
Quando o vê, o coração dispara, a palma da mão sua.
Apaixonada, fica boba, dá frio na barriga, é uma loucura.

Mas se o perde, chora.

Menininha cresce, vira mocinha.
Os garotos aumentam, chegam as espinhas.
Agora ferrou, são apresentadas aos regimes.
Chocolate e salgadinho tornam-se crimes.
Encanadas, brigam com o espelho.
A calça que não veste, aumenta o desespero.
Bebidas, todas. Cerveja, uísque e champagne.
Resultado: porres, ressacas e vexames.
Quer tatuagem, silicones e banhos de creme.
Todo mês a maldita TPM.
Por que este nome? Tonta, paranóica e malvada?
Que nada, só quer carinho, atenção e ser amada.
Pai ciumento controla o horário.
Exige explicação e só fornece alvará temporário.
Aventura-se com mentiras, faz o proibido.
Dorme na casa dele escondido
Se o beijo é bom, sensação melhor não há.
Se for ruim, pensa: “De garoto tenho que trocar”.
Quando o vê, o coração dispara, a palma da mão sua.
Apaixonada, fica boba, dá frio na barriga, é uma loucura.

Mas se o perde, chora, mais ainda.

Mocinha cresce, vira senhorita.
Agora é dona do próprio nariz, independente e convencida.
Mulher madura. Na cama é dominadora.
Torna-se confiante, inventa posições, é uma avalassadora.
Quer conversa, carinho e tesão.
Homem certo: romântico e garanhão.
Somem as encanações. Só do sexo, pois começam as do corpo.
Plásticas, são desejáveis. Planejam, mas o medo é louco.
Regimes, todos experimenta.
Saiu na revista, vai lá e tenta.
Faz lipo na barriga, critica os primeiros sinais do tempo.
Continua linda, mas rigorosa condena o momento.
Lingerie, tem de todos os tamanhos e cores.
Grandes para o dia-a-dia, minúsculas para os amores.
Bebidas, vinho bom, com o cara especial.
Romântica, gosta do ousado, do animal.
Se o beijo é bom, sensação melhor não há.
Se for ruim, pensa: “Esse tem que se danar”.
Quando o vê, o coração dispara, a palma da mão sua.
Apaixonada, fica boba, dá frio na barriga, é uma loucura.

Mas se o perde, chora, mais, mais ainda.

Menininha, mocinha, senhorita.
O tempo passa, a paixão fica.